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- Como te chamas?
- Não sei… talvez Rosas Murchas…
- Que idade tens?
- Não sei… A idade que já não deixa dúvidas…
- Mas afinal, quantos anos tens?
- Não sei… Anos? Tantos! Tantos que já não existo…
- Só dizes disparates… Enfim, o que fazes?
- Fazer? Fazer o quê?
- Sim! Em que te ocupas?
- Estou sempre ocupada. Trabalho mesmo muito….
- Mas em quê?
- Ensino… Ensino aqueles que sem idade, como eu, já perderam
também a esperança de serem amados e considerados úteis…
- Mas isso é profissão? Pergunto como passas os teus dias…
- Ainda restam dúvidas? Trabalho! E nas horas vagas choro, deixando
as minhas lágrimas no papel, transformadas em letras…
- Mas? Não te entendo… continuas a não dizer coisas acertadas…
- Achas? Mas então o que são coisas acertadas para ti?
- Quero conhecer-te. Quero saber mais de ti. Quero, agora, perceber
porque te expressas dessa maneira…
- Pensas então que estou num estádio de demência?!
- Não foi isso que disse. Apenas te considero um ser muito estranho…
Olhos chorosos, sempre muitos livros, papel, lápis… e quando sorris,
parece-me um sorriso que não é teu… mas também não sei dizer
mais sobre isso…
- Acertas-te! Ao menos uma vez! Realmente o sorriso não é meu… é
da felicidade emprestada… às vezes dão-nos um pouco, que para
nós é um mundo inteiro…
- Será que tudo isso é tristeza? Explica-te!
- Como se pode não ser triste, quando o que não temos, nunca será
nosso? Percebes? Falo de liberdade… nunca somos livres. Apenas a
servidão nos permite viver… somos escravos para sermos vivos. Aos
escravos não é permitido amar!...
- Mas isso foi quase pré-história para nós…
- Não! Essa é a herança que, de geração em geração, nos cabe…
- Dizes coisas tão estranhas… Os que vivem contigo compreendem-te?
- Mas eu vivo só, entre a multidão… Quando nada se tem… nada se
pode dar… e quem não dá não é ninguém… Nem se perde tempo a
compreender..
- Possivelmente terás razão… Começo a admitir que também não me
encontrei ainda… E agora, que pensava que era um feliz mortal, com
um coração a bater, mesmo ali ao lado…
- Não te iludas. Não tarda, que não estejas como eu.
20.03.07