domingo, outubro 16, 2005

EU SABIA!


Eu sabia! Eu sabia desde sempre. Eu sabia que era um mito. Eu sabia que nunca seria mais do que uma aragem na terra do nada, para além das dunas. Eu sabia que mais dia menos dia, nada significava e que seria apenas um sopro de raiva a juntar a outras raivas.

Olhei as linhas do comboio. Chamaram-me mas não atendi. Ignorei o chamamento mais uma vez… Jamais quereria ser o fulcro das atenções como se fosse a protagonista de um filme de terror… Há formas subtis de auto eliminação… Aí não haverá mais pesadelos, nem recordações……

Eu sabia que não era, nem sou, nem serei o que queria ser. Cheguei sempre tarde, se alguma vez cheguei a alguma parte… Até para amar há uma hora certa!

Isto são notas. Não mais o poema da saudade… Esse parte comigo… parte dentro de mim… sendo eu própria…

Eu sabia desde sempre, que apenas iria escrever frases soltas… palavras ao vento, como as folhas secas que rolam estrada fora, Outono dentro… Eu sabia que o medo é controlador da acção…

Eu sabia que os anos nos tiram a possibilidade de dizer “eu quero”, que nos impedem de sentir, de mostrar o que se sente, de escolher um momento feliz… de viver…

Eu sabia que sempre fora proibido dizer sim, simultaneamente ao coração e à obrigação…

Eu sabia que todos os nomes sussurrados, em nada tinham a ver comigo. Eu sabia que eram nomes, apenas nomes… Os nomes deles…as músicas para eles…a ternura para eles… Sempre os outros! Nunca eu!

Eu sabia, eu sabia… mas queria… queria saber como se pode ser alegre, estar sem stress, estar bem com tudo e com todos…mas também sabia e desde sempre soubera… que nada é compatível com nada… e as emoções, as pulsões, as impulsividades tiveram de ser contidas e amolgadas, para serem jogadas ao vento… fingindo que nada disso existe… apenas existe o último dia, como solução para todas as situações…

Eu sabia que nunca cheguei a estar naquele lugar àquela hora. Eu sabia que era a minha fantasia que me fazia acreditar no que não era; afinal eu sabia que não era mesmo…

Eu sabia que aqueles olhos que me olharam com ternura, não eram os olhos que me estavam a olhar, eram os olhos que eu queria que me olhassem…e eu sabia… e eu sabia que aqueles lábios que me tocavam, não era a mim que tocavam… eu sabia que não era nada… mas sabia apenas que queria sentir algo a que pensava ter direito… sem qualquer tipo de direitos… eu sabia que não era nada!

Eu sabia que naquela curva da estrada, havia de estar a sombra gigantesca daquela árvore, não menos gigantesca, que abraçava o meu sonho de amor…aquele Cipreste abraçou o meu amor, absorveu-lhe os beijos, percorreu-lhe o sangue e eu sabia que dentro daquela sombra, eu não cabia…

E eu sabia…sabia tudo! Sabia o que nunca quis saber, mas sabia e por muito que se tentasse procurar que eu não soubesse… apenas a morte podia esconder…e como um sopro de vento bailando entre a folhagem a amarelecer... vai encontrar-me e vai-me ter…

4 comentários:

© Piedade Araújo Sol (Pity) disse...

Eu sabia!
sempre soube e sempre me enganei
e sabia que me enganava
e não fugia.
Ficava
Mas eu sempre soube
E sempre reneguei
Até ao dia em que
caíste no adro da igreja
E não mais te levantaste
Eu sabia
que existias
Morte

© Piedade Araújo Sol (Pity) disse...

Eu sabia!
sempre soube e sempre me enganei
e sabia que me enganava
e não fugia.
Ficava
Mas eu sempre soube
E sempre reneguei
Até ao dia em que
caíste no adro da igreja
E não mais te levantaste
Eu sabia
que existias
Morte

GNM disse...

Este teu texto fez ficar percorrido de melancolia...

Continua a sorrir!

Anónimo disse...

Sim... como GNM disse: sorrir... sorrir sempre!!! :)
Beijo no coração!!