sexta-feira, abril 29, 2005

COMENTÁRIO !


Horas de inocência! Que horas são essas? Vistas em que relógio? Serão talvez as horas do amar… e porque amar é viver, então vivamos!!!

Os silêncios são o badalar dos sinos de amores vagueantes nas tortuosas veredas do inconsciente… a hora… as horas são as palavras não ditas, mas gritadas por almas sedentas de amor, que muito embora o desejem não sabem onde encontrá-lo… porque onde sonham que ele esteja … apenas sentem as profundezas do desespero … e esses amores são o agonizante tormento do ser o que não é embora quisesse ser… para satisfazer a ansiedade angustiante do quem mais se está amando … Como entendo essas horas, sem o deslizar dos ponteiros que marcam a intemporalidade do tempo esvaído no silêncio do badalar dos sinos da incoerência do viver!...

domingo, abril 24, 2005

FRAGMENTOS


De repente as ideias deixam de fluir. As vontades dissipam-se num misterioso não querer e toda a imaginação é varrida como que por um tufão, deixando de criar belas imagens multicolores… e o verde torna-se cinzento e o azul preto… deixa de haver branco e a cinza espalhada pelo vento, deixa a Terra seca e entristecida…

Silenciam-se os sons melodiosos dos sussurros matinais. As aves calam os seus chilreios e dos beirais pardacentos, por entre o nevoeiro, apenas o piado tristonho do melro, a dizer um bom dia lamurioso…

E a hera é cinzenta e os choupos são cinzentos e o cedro que fora de um verde vibrante, passou a cinzento-escuro, muito erecto como uma das cruzes do Monte das Oliveiras…

Lá em baixo, como uma fita de prata envelhecida, o Tejo observa, na sua passagem lenta, o choro da ninfa moribunda…

Que lágrimas! Lágrimas de um ser que, agonizante, deixa em seu suspirar de despedida, um ror de saudades… das conchinhas nacaradas das praias do sul, das joaninhas vermelhinhas com pintas pretas, aquando os campos eram verdes… das rosas do jardim à beira Tejo… da simples xícara de café, na Esplanada que domina a paisagem… e até das falácias tão estruturadas por um qualquer filósofo sedento de quaisquer sentimentos… Como teria sido Kant?... para deixar obras como a Crítica da Razão Pura, … ou Descartes?... Sócrates?...a quem acusavam de impiedoso… Como pensariam na realidade estes pensadores, que ao longo de séculos ensinam a pensar tantos outros… poderiam ter sido déspotas? … ambíguos? … indefinidos?... Sim! Indefinidos, talvez as suas concepções também contribuíssem para esta unicolor acinzentada…


23.04.05

sexta-feira, abril 22, 2005

UM NOVO DIA!



A nossa rua! Os carros da nossa rua. As árvores da nossa rua. As plantas verdes da nossa rua…

Uma nova música acompanha a escrita que sai sem que queira que diga o que a alma sente. Uma nova e mais dolorosa forma de sentir o peso que a atmosfera exerce sobre o peito, que cansado de arfar, se diz cansado para continuar uma corrida por um caminho que não tem fim…

Desejaria também que houvesse um outro sentimento. Uma outra forma de ver, sentir ou esquecer o que passa lentamente frente aos meus olhos e que se desfia pelo pensamento como desfiei um rosário tantas vezes, entre os dedos…gostaria de apagar da memória o roxo dos jacarandás, o vermelho rubro das acácias, o verde especial das papaieiras ou o colorido dos grandes amores-perfeitos que ladeavam o caminho para a entrada de casa… Como seria bom esquecer o quanto pesavam os livros que apertava debaixo do braço nas idas e vindas do liceu, ou mesmo o toque do telefone às oito e meia da noite, para ouvir doces frases ou umas parcelas de “Petite fleur” ou de “La vie en rose”… como seria bom apagar tudo, mas mesmo tudo, desta memória tão cansada.

Olho de novo para as fotos, que postas neste rectângulo onde escrevo, me trazem à memória outras memórias… uns olhos cor de avelã, uma boca viçosa e uma amálgama de pensamentos de destruição do que mais belo a Natureza nos deu…o ser natural. É tão velha a Natureza e sempre tão bela e tão repleta de ensinamentos!

Também não resisti à leitura de uns escritos. Quem tem a arte de escrever o que foi escrito, é irresistível para além do tempo que se tiver…

Gostei tanto de ler esses escritos!

Gostei de olhar de novo para a nossa rua, de observar os nossos verdes, de reler palavra por palavra, como se estivesse a ler a mais bela carta de amor que poderia ter recebido…

Vieram palavras belas, sentimentos profundos para quem só existe na imaginação de quem escreve… e para quem as lê, vêm do além, acabadas de chegar, como promessa de um amor belo e incomensurável…

22.04.05

sábado, abril 16, 2005

PÁGINA (?) DO DIÁRIO



Num momento se perde o que jamais se pensara ter … esvai-se o pensamento por entre a fumarada de uma queimada e enquanto os olhos postos nos fulgores das labaredas vai-se sentindo o ardor do fumo e choramos…pelo fumo ardente, pelo tormento da dor profunda de uma saudade sem dimensão… que mais se sente quando nos fazem senti-la.

Como o ódio nos transforma!... Como é detestável os que jogam no “faz de conta”, querendo parecer o que não é, e, pontapeando sentimentos, como se jogassem futebol nos destroem … Agridem com palavras de incomensurável significado fazendo-se despercebidos do mal que estão a causar… Como se pode viver ignorando a vida… É um contra “natura” absoluto; é renegar a existência fingindo existir, só por existir…

O ilícito não é todavia o que nos fazem crer, mas o que sentimos e que cremos com toda a licitude… porque se não sentirmos, como poderemos fazer julgamento do que é lícito ou ilícito? E como se pode condenar por ilegalidade uma consequência de um fervoroso amar espiritual, se a psique vive de pulsões, quer sejam de vida ou de morte, de emoções e muitas contradições e está guardada numa caixa que se chama corpo e a sua satisfação se transfere para esta caixa? …

O pensamento, o sonho são luta constante entre as partes materiais e imateriais de cada um de nós, transportando-nos ao que não se consegue perceber, mesmo investigando ao mais profundo da raiz do facto, que mesmo não consumado fisicamente, é-o numa mescla de pensamento dolorido e num orgasmo imaginário e devastador, num misto de beleza e de prazer … porque para o prazer ser prazer, há que ter beleza, encantamento e que toda a imaterialidade de cada um de nós seja um enleio de ternura e compreensão, numa entrega plena, incondicional e abnegada…





02.04.05

DESPEDIDA!



Entrei na sala. Uma semi-obscuridade envolvente e aprazível era cúmplice do ambiente que se vivia naquele lugar.

Caminhei lentamente à volta da sala, com cadeiras encostadas a todas as paredes e velas ardendo em altos pedestais de ferro forjado.

Ao meio da sala, sobre um pedestal semelhante a um altar, estava muito ornamentado um caixão. Muitas flores! Coitadas!... terem sido cortadas para embelezar o que nada tinha de beleza…

E ali deitada, muito esticada, muito pálida (que não era assim antes), estava eu!

É verdade. Eu!

Eu, deitada, fria, pálida, dentro de uma caixa rectangular de madeira, onde não tardaria a porem uma tampa de madeira, fechando para sempre o meu corpo… sim porque daqui irei entrar naquele pequeno túnel, de tamanho certo para passar o caixão, rumo ao forno crematório.

Descontraidamente sento-me na barra de madeira do meu caixão e olho-me. Olhar-me-ei assim por pouco tempo… depois as minhas cinzas, uma mistura do pinho do caixão, das minhas vestes e da rosa vermelha que me entrelaçaram entre as mãos poisadas languidamente abaixo do peito…serão depositadas num vaso de lata e levadas para onde pedi que as deixassem…

Observei em volta. Contrastando com a minha serenidade, os outros rostos por ali sentados, ou aos “molhinhos” em pé, conversando, pareceram-me estar tensos ou chorosos. Que ironia! Chorarem agora, quando me estou rindo dessa corja de malfeitores para com os sentimentos humanos!

Voltei a passear a minha observação por todo aquele quadro. Primeiro pareceu-me macabro. Depois triste. Mas numa observação mais detalhada: que cenário ridículo! Tragicómico! … Como todos aqueles, presentes, haviam estudado bem os seus papeis… Como representavam bem!

Não lhes iria dar mais trabalhos! Não os escutaria nem me iriam ouvir alguma outra vez… Nunca mais iriam inventar “desgraças” para que me comovesse com elas… Nunca mais iriam sacrificar os seus preciosos tempos para me “aturar”…

Contudo é interessante ver-me ali, branca e leve, branca e fria como um farrapo de neve, depois de ter sido o pedaço que sobressaiu daquela colherada gelatinosa que fecundou a minha mãe… Agora, apenas um suspiro, observo os que restam a dar continuidade a uma agonia que perdurará enquanto não forem, como sou neste momento, apenas um suspiro… e um punhado de cinzas daqui a pouco, que os deixará pensativos, acabrunhados e mesmo pesarosos por não me terem dado uma gota do que tanto tinham… Sobreviverá os seus remorsos mesmo aquando forem suspiro como sou agora e um punhado de cinzas, como passarei a ser daqui a uma horas…

Sem adeus, sem misericórdia pelos seus não feitos, rir-me-ei, pois vinguei com a minha morte o terem de ficar vivos…



04.04.05

Passeio no meu Diário…


A passo cadenciado, fui caminhando pela vereda acima, ziguezagueando pelos pedregulhos que impediam um caminhar certinho. Lá em cima, as ruínas do castelo pareciam imagens fantasmagóricas recortadas no azul pálido do céu primaveril. Mais uns passos e chegaria, mesmo com um ventinho soprando contrário ao meu andar.

Por entre espaços que poderiam ter sido aposentos faustosos, fui pisando aqui e além, e, com a imaginação a criar quadros que poderiam ter sido reais, sentia-me quase a ser uma personagem daquele castelo que já não era mais do que um montão de ruínas…

Não resisti e sentei-me para observar aquela paisagem tão majestosa. Passei o olhar pelos montes e vales verdejantes, salpicados de telhados por entre o arvoredo. A paisagem vista do cimo do monte era realmente deslumbrante. As pedras cobertas de líquenes mais pareciam seres imaginários do tempo dos dinossauros.

Fechei os olhos por momentos para me sentir bem integrada naquele todo e meditando no que tudo me fazia recordar, na saudade que todas aquelas pedras murmuravam, no chilreio dos pássaros que esvoaçavam entre as árvores, nas palavras que jamais ouvira mas que sabia existirem. Nos gestos que possivelmente alguém poderia fazer, mas que eu jamais vira. Nas canções que me cantara, mas que possivelmente cantara a milhentas outras pessoas. Nas perguntas que me fazem mas que não sei dar resposta… porque não sei nada, nem nunca conseguirei saber um pouco do muito que desejava saber.

Não irei saber nunca como irá ser o depois. O meu depois esvoaçou como aquela andorinha que curvara além, na ameia mais alta, que por sinal se manteve séculos fora…

A única resposta que consegui obter, por experiência, foi a que consegui dar como sugestão… a do finalizar, quando já nada há para dar ou para receber…




04.04.05

MENSAGEM!

Transferi para aqui o Pólo Norte.
Pintei toda a paisagem a eito
E sem amores, só e sem sorte
Olho em redor, sem nada ter feito…


Viver sem viver e altiva no porte
Navegando no frio deste branco gelo
Procuro em vão um amor suporte
Que sem me destruir seja meu desvelo…


E deslizando do sonho à desilusão
Viajo incessantemente a procurar
Um porto de abrigo para atracar…


E sem ritmo nas batidas do coração,
Com o sangue congelado nas veias,
Sinto-me perecer nas tuas teias…




05.04.05

quinta-feira, março 24, 2005

FOLHA X DO MEU DIÁRIO



Noite, ausências promotoras de sonhos. Uns sonhos reais, outros numa ambígua amálgama de misturas de realidades e fantasias ou de recordações de distantes passados esfumados num tempo que nos sonhos não existe...

... Vínhamos do Liceu, pela hora do almoço. Livros debaixo do braço. Caminhávamos lado a lado, num passo cadenciado mas lento, para durar mais tempo a companhia...

Agradava-me a companhia do mocetão esbelto e de olhos azuis, de um azul celestial, que pareciam não ter fim.

... Banais conversas sobre as aulas, os colegas, o que iríamos fazer nas férias grandes... o Conjunto onde tocavas e as contrariedades com a tua mãe... enfim... como era agradável descermos a rua em ameno diálogo, sem pensarmos no que nos rodeava...

Queria não ter sonhado. Queria que não tivesse existido um episódio que tivesse de recordar e muito menos de o vir a sonhar.

... Quando chegámos à porta do prédio onde residia, ao despedirmo-nos, deste-me aquele beijo, doentio, que quase me fez desmaiar. Fiquei apertada em teus braços, como que estrangulada pelos tentáculos de um polvo... depois... depois, abruptamente afastaste-me e com um pedido de desculpas e à queima roupa disseste que era o primeiro beijo a uma rapariga... era só para ver como era... porque só te interessavas por rapazes... e eu fazia-te lembrar um...

...Fiquei atónita! O meu primeiro beijo! Nem sequer estava apaixonada... apenas me agradava levar ao lado um colega que fazia todas as raparigas olharem para nós...

Foi terrível ter sonhado com um episódio tão... tão...

E com este sonho, veio-me à ideia a notícia que, no último dia de aulas desse ano distante, as colegas de turma me deram e que viviam perto do Toneca. Foram duras, maldosas e desrespeitadoras...
“O teu namorado suicidou-se...” Gelei. Não por ter sido o meu namorado, porque não fora, mas pelo facto de, um belo rapaz, acabar dessa forma... até o teria amado. Até teria deixado que a sua vida fosse como a Natureza quisera. Era tão bom moço! Mas nestas coisas de amores, não mandamos... e eu estava tão enamorada pela minha saudade... e da saudade fiquei enamorada eternamente...

Com os anos, com os sonhos, com os tempos sem tempos, repenso como poderia ter sido a salvação do meu amigo Toneca. Possivelmente, se eu tivesse dito que o amava loucamente e que os seus gostos íntimos não tinham significado, porque o amor espiritual é muito mais valioso que qualquer outro acto cometido pelo ser humano, talvez não estivesse agora a recordá-lo depois do sonho, que foi um verdadeiro pesadelo....



23.03.05

terça-feira, março 22, 2005

AUTO-RETRATO

As palavras atropelam-se
como a água numa cascata.
Queria escrevê-las a todas
mas faltam-me as forças...
Sou um “roubôt”.
Um monte de sucata.
Sou um relógio velho
a quem a corda se partiu...
Sou e não sou uma mulher de lata.
O meu coração parou,
quando o meu sonho ruiu
e de mim se foi
quem este peito amou...


As palavras amontoam-se
e o meu desespero aumenta
pois jamais serei quem sou...


Quer chova, quer brilhe o sol,
terei de viver duas vidas:
Uma, aquela que sou.
Outra, aquela que fui...
E nas palavras a monte,
Não conheço a real:
Aquela que ainda vive,
aquela que não acaba...
como a água da fonte,
Sempre feliz e leal
a dar de beber a gentes
que estão sedentas de tudo...
como também eu estou...




Abr.1981

terça-feira, março 15, 2005

REFLEXÕES


A intemporalidade do tempo é a realidade em que mergulhamos no percurso desse tempo, que não gastamos por não termos tempo que nos chegue para o seu uso.

De todo o tempo que vamos deixando escoar-se, uma parte é para sonharmos, quer estejamos nos períodos de adormecimento físico, quer estejamos vibrantes de vida, mas sonhando.

Por mais belo que seja o sonho, é sem dúvida um desgaste inútil desse tempo que se esvai incontroladamente, pois sendo intemporal não é contável embora para sonhar sejamos reais.

E esvaída em sonhos privei-me do tempo que sem tempo se volatilizou em mil e uma desilusões. E sem tempo e sem ilusões gravito no espaço intemporal da solidão, odiando quem amo e perdendo-me num sem rumo eterno.

A realidade do que é irreal tem-me perseguido num sem tempo constante e sob o sonho inebriante da minha realidade vagueio nesse sonho, que embora perdido neste sem tempo, é simultaneamente o meu tempo de expectativa.

A duplicidade do sonho que foi saudade e que deixou sem luz o que me resta dum tempo que jamais foi meu, arrebata-me o pensamento para o tempo de padecimento, deixando-me no vazio, sem ser sujeito, seja em que sentido for, desmemoriada, sem passado nem futuro, sem tempo na intemporalidade do tempo...





15.03.005
isabel

sábado, março 12, 2005

FASCINAÇÃO

A noite estava fria depois de um fim de tarde coberto por um nevoeiro espesso.

Desembarquei e com a pequena maleta ao ombro, procurei um taxi. Pedi para me levar ao hotel cuja morada havia apontado na última folha do caderno que sempre me acompanha.

Segundo a amiga que mo indicara, era um hotel simpático, meio luxo e discreto. Eu simpatizara com o nome, por isso ia confiante.

O taxi percorreu ruas e mais ruas. Num ora vira à esquerda ora à direita, finalmente cheguei. As burocracias da praxe e quando subi ao segundo piso, já tinha o meu plano traçado.

Duche. Uns bolinhos com chá e envolta no sonho e expectativa deite-me sobre a cama, com a televisão ligada e o rádio baixinho, para ouvir um programa de música dos anos sessenta, que todos os fins de semana passava na emissora X.

O verde acastanhado ou castanho esverdeado dos olhos exerciam um fascínio que me paralisava. Nem pestanejava enquanto sentia a massagem suave nas costas. Os lábios não muito grossos mas carnudos acariciavam as minhas pálpebras, a face e percorriam-me enquanto sucessivos arrepios me estremeciam.

A conversa foi longa. Vários temas, preocupações múltiplas e mútuas, numa tentativa de se dizer o mais que fosse possível no mais curto espaço de tempo, pois o tempo verdadeiro que ia restando, era o verdadeiro tempo de mais um par de horas, para depois voltarmos à rotina do dia a dia que nos esperaria domingo à noite.

Pelo princípio da madrugada o cansaço já dominava, mas não houve resistência para cairmos nos braços e nos amarmos. Aconteceu! Não programado. Tanto tempo depois de tantos anos de conversa sobre os mais variados temas e as mais diferentes preocupações.

Surpresa! Se amar assim, é que é amar, jamais vou desistir de querer amar de novo! Que palavras poderão existir para traduzir o êxtase, o vibrar interior, o relaxamento espiritual, o abandono delicioso....apenas um obrigado pelo momento mais excepcional de toda uma existência.......

O sussurrar cadenciado de “querida” durante o resto da noite foi
maravilhoso. A respiração ofegante pela manhã foi o hino de agradecimento à possibilidade de uma experiência única, depois de uma total desilusão do que sabia como “amar”....

Mas os momentos de fascinação são momentos e como momentos são momentos que o tempo não permite que se repitam, a fascinação esvaiu-se numa saudade que se juntou a outra saudade tão diferente e inigualável.

A amizade tem facetas estranhas, belas e por vezes surpreendentes que nos obrigam a um eterno OBRIGADO!


12.03.05

quinta-feira, março 10, 2005

UM LUTO PERENE


O Sol pôs-se muito pálido por entre nuvens meio esfarrapadas e não tardou que um crepúsculo acinzentado abrisse as portas ao anoitecer, envolvendo-nos.

Depressa, o escuro manto da noite foi o lençol que cobriu todos os actos que não quis testemunhar e deixou que uma vez mais ficassem escondidas as lágrimas que iam escorregando desabridamente por este rosto, que de tanto pranto, já tem mais sulcos que a terra acabada de lavrar...

Os soluços incontroláveis e o choro convulsivo foram dando lugar a uma apatia indecifrável. Os olhos parados no nada deixavam transparecer uma profunda tristeza. Um não esperar por nada nem por ninguém... acabava de perecer o último alguém.

Que esperar do que vem do nada? Que tipo de ilusão tentar manter quando o negro manto do luto nos cobre por décadas e quando o tentamos despir e logo o estamos a colocar de novo?

Vamos lá de éticas, de moral, de bons costumes! Como se pode pensar em tudo isso quando tudo isso é um perfeito disparate? Como se pode pôr em evidência a ética, quando por ética deixamos baixar à sepultura quem mais amamos, para que nos braços de outra “terra” desfrute da ternura que por ética não lhe demos? Como se pode considerar moral a atitude amoral de dizer não, quando todo o nosso pensamento e todos os quarks dizem sim? O que são os bons costumes perante a renúncia a quem nos pode manter vivos?

Claro que à luz da Psicologia vamos em busca dos quês e porquês para tais momentos actuais; vamos em busca de novos objectivos para superar as desditas que juntas a outras e outras origens chegam à desdita do momento e, como se fosse possível, passados tempos, tudo estará bem...

Mas, claro que, se observarmos este eterno luto por perdas sucessivas ou por abdicação, à luz da Filosofia... desarticular-se-ia a dor, não faria sentido mais este luto, porque a razão da sua razão não poderia ter existido porque no calculismo da clarividência não teria havido amor e por isso não teria havido perda e sem amor nem perda não haveria luto nem sofrimento...e eu não seria eu!!!
09.03.005
isabel

terça-feira, março 01, 2005

FILOSOFIAS DO FALAR E DO DIZER



Falar ou conjunto de sons que conjugados expressam ideias e ou apenas palavras. Eis que surge a dúvida, – falar ou não falar – eis a questão!

Por vezes falamos demais. Outras de menos. A maior parte das vezes falamos, falamos e nada dizemos.

Falar, sem dizer nada, é peculiar dos que querem enganar. Nesta forma de expressão entram as entoações com mais agressividade.

Como bons faladores que somos, deveríamos procurar cautelosamente os temas de que falamos.

Procurar com quem falar, isto é, dialogar, é outro aspecto. Podemos cair no erro de só monologar ou de falarmos só por falar, e, isso não...

Quando falamos, temos de ter consciência do que estamos a dizer. Devemos pormenorizar e enfatizar sempre que se pretende chamar a atenção e sintetizar ou abreviar aquando surgem supérfluos.

Falar e dizer, sinónimos de significado diferente, uma vez que há quem fale e não diga nada e há os que no simples dizer, nos falam ao coração...



1999,Dez.

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Outra folha do Diário



Tenho o isqueiro na mão. Acendo ou não acendo o cigarro que tremulamente seguro entre os dedos...eis a questão... se fumar este cigarro quebro o que prometi a mim própria. Se não o fumar deixarei de ter o prazer de apertar com força o isqueiro que tenho na mão. E restando apenas o isqueiro, porquê não fumar? Se deixar de fumar deixa de existir razão de apertar o isqueiro na mão e deixando de o ter na mão, cessará o último elo que me ligava aos cigarros.

E é tão belo este isqueiro! E tão valioso... nem mesmo o isqueiro de ouro que meu pai me havia dado teve tanto valor...

Como nos agarramos a coisas tão simples... como tem um significado tão incomensurável um simples isqueiro... e como é tão reconfortante tê-lo fechado na mão...

Sinto-me desfalecer. Sinto que todas as forças me abandonam como se estivesse prestes a partir... não fora a força que este isqueiro me está a transmitir, possivelmente neste momento estaria transformada em mais uma página de saudade... para que junta a outras saudades, deixasse que as saudades que este isqueiro me está a oferecer, fossem apenas saudade de quem tenho de me esquecer...

Não resisto! É mais forte do que eu. A chama que brilha é a eterna presença do que não existe, mas que persiste na memória de um até sempre...


19H40

Silêncio e lágrimas.......

Silenciosamente descaíram os ponteiros do relógio tocando em simultâneo as doze horas......... Meia Noite! Mas o silêncio é sepulcral. Não há insectos, nem aves nocturnas, não ladram cães.......nem carros passam. Está frio. Um frio tão forte que faz doer os dedos quando tocam as teclas para bater em mais uma letra.

Dói a alma, se é que temos alma... Dói sobretudo o todo imaterial que temos, porque sofrer faz doer.

E o que é sofrer? Não é mais nem menos o que nos rodeia e ao que não nos ajustamos. Ao que não aceitamos, mas que não podemos recusar.

Porquê há desentendimentos, quando tudo poderia ser tão belo.......

Para quê ter de chorar quando é tão delicioso rir....... Se ao menos houvesse sinceridade entre as pessoas que nos rodeiam. Se nunca nos tivessem de “enxotar” como correndo com os galináceos para a capoeira, se as pessoas se amassem mais um pouco, talvez não andássemos a morrer às parcelas no dia a dia....

Mas fazer sentir a doçura de sentimentos, tentar transmitir carinhos e compreender os que nos rodeiam, é tarefa impossível. São calhaus que nos caiem em cima, sem dó e desrespeitando a pureza dos nossos sentimentos. Só a inveja comanda e o desespero dos que são como são sem que se possa ser igual. Penso que só com ódio se pode sobreviver. Ninguém ama ninguém.......

Neste silêncio em que nem o som do pensamento marca presença, nem as lágrimas que deixo rolar pela face deixam ruídos, nada fará mudar meu estado de alma: Que venham escritos, fotos ou alaridos, nada, mas nada será igual. Foi cometido mais um hediondo crime contra a doçura do ser humano. Marcou e jamais deixará de existir a cicatriz..... e já são tantas.......

Morri um pouco, mas sobrevivi para perdoar odiando.........


25.02.005

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

Uma outra folha do meu Diário



A incapacidade de gerir toda a turbulência que me envolve deixa-me agonizante e perturbada. Sem rumo e indefesa trilho os caminhos da angustia e uma ansiedade generalizada abala toda a minha mente. Choro rios de lágrimas que não escorrem pelas faces porque creio não ser capaz de as derramar. No entanto choro. Estou a chorar perdidamente. Choro pela alegria dos vitoriosos, pela derrota de todos os que perderam e choro ainda por saudade de quem nunca poderá partilhar comigo todas estas angustias e ansiedades.

Choro por ler e não ler o que já era um hábito rotineiro, por me deixar embalada entre a saudade e o presente. Choro por tudo o que uma pessoa sente e deve sentir e lhe é vedado, por se resignar a fazer do seu corpo a caverna dos seus sentimentos. Choro pelo que sempre vibrei sem vibrar por ter e não ter o que qualquer mortal mais deseja.

Queria que tudo fosse belo e alegre e é triste e cinzento, devastador...

Queria deixar de sentir de uma vez por todas e sem deixar de ser eu, deixar de existir fisicamente, porque nem sei se alguma vez existi...

Na outra face do papel está um punhado de linhas por onde acabei de passar os olhos. Têm muito significado, dizem de tudo um pouco, mas foi-me vedado ver o muito mais que tanto ansiava. Fecharam-se as portas porque não houve compreensão para chegar à meta que havia estipulado para o entendimento e para a respeitabilidade exigida pelos sentimentos nobres que consolam o Homem. Perdi! Está perdido mas felizmente que sei perder, porque não houve um único dia da minha existência que não perdesse algo. E esse algo foi sempre marcante porque me havia sido precioso.

Se não fora a gota de vida que espera de mim o que ainda tenho para dar, acabava agora mesmo, sem um olhar, um adeus, ou um virar de cabeça para não levar qualquer recordação...

21.02.005

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

CAMINHADA

Neste passeio sem passeio,
pisando a terra molhada,
penso e repenso meu passeio
só, triste e revoltada!


As nuvens abraçam o arvoredo
despidas das folhas no inverno.
Os liquens, verdes, fantasmas,
ouvem todo o meu segredo...


Caminhando muito lentamente
pisando as folhas secas, caídas,
deixo as minhas ilusões perdidas...


As lágrimas rolam docemente,
são minhas dores sofridas,
talvez mais tarde esquecidas...


17.12.87
00H35

RETRATO

As palavras atropelam-se-me
como a água de uma cascata.
Queria escrevê-las a todas
mas faltam-me forças...
Sou um “robot”. Um monte de sucata,
sou um relógio velho
a quem a corda se partiu.
Sou e não sou uma mulher de lata.
O meu coração parou
quando o meu sonho ruiu
e de mim se foi
quem este peito amou........


As palavras amontoam-se
e o meu desespero aumenta
pois jamais serei quem sou!


Quer chova, quer brilhe o sol,
terei de viver duas vidas:
Uma, aquela que sou,
outra, aquela que fui...
E nas palavras a monte,
não conheço a real,
aquela que ainda vive,
aquela que não acaba
como a água de uma fonte,
para dar de beber a gentes
sedentas de tudo,
como também eu sou... ...

14.04.81

terça-feira, fevereiro 08, 2005

000_0387


000_0387
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ROSE

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

ROSA!

Num gesto de ternura
as sépalas abriram-se de par em par.
Gaiatas, sorridentes,
coloridas e aveludadas,
as pétalas espreitaram.
Sentiram o perfume do ar.
Espreguiçaram-se com doçura
e quais crianças, contentes,
brincaram....

07.02.005